Dr. Furlan é perseguido por não se curvar a Davi Alcolumbre, afirma Revista Piauí

Dr. Furlan é perseguido por não se curvar a Davi Alcolumbre, afirma Revista Piauí

Reportagem da Revista Piauí sustenta que o prefeito Dr. Furlan e sua família vêm sendo alvo de uma sequência de investidas políticas ligadas ao senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). O pivô mais recente é o afastamento, em janeiro, do promotor João Furlan, irmão do prefeito — “a primeira baixa na família Furlan”, resume a revista.

Tudo teria começado em 2022, quando Alcolumbre tentava barrar a candidatura ao Senado de Rayssa Furlan (Podemos), esposa do então prefeito. Em maio daquele ano, cinco meses antes da eleição, o senador procurou Dr. Furlan “com semblante fechado”, dispensando as piadas que costuma usar para quebrar o gelo. Perguntou se teria apoio para sua reeleição ao Senado em vez de ver Rayssa na disputa. Caso contrário, segundo um interlocutor com acesso à conversa, “faria o possível para destravar um processo por crime eleitoral” contra João Furlan — ação movida por Josiel Alcolumbre, irmão do senador. Alcolumbre nega a ameaça e diz não ter “capacidade de interferência sobre instituições autônomas”.

A Piauí cita um áudio divulgado pelo Metrópoles em que o senador orienta Pedro dos Santos Martins (Pedro DaLua), então presidente da Câmara de Macapá, sobre uma audiência com um desembargador: “Segunda, 10 horas, no gabinete dele, no tribunal, para você relatar as questões jurídicas e políticas, sem advogado”. Na ligação, Alcolumbre afirma já ter adiantado o tema com o magistrado: “Eu disse a ele que faço política de grupo, de entrega, e sou grato às pessoas”. DaLua reage: “Porra, eu tô todo arrepiado aqui”. Na mesma conversa, ele diz ter encaminhado no Tribunal de Contas a aprovação das contas “do nosso governador” e anuncia duas CPIs contra o prefeito: “Eu quero que o filho da puta do prefeito Furlan esteja preocupado com duas CPI lá na Câmara”. Alcolumbre responde: “Vai para cima”.

Rayssa manteve a candidatura. Oito dias após o lançamento (21 de julho), João Furlan foi alvo de busca e apreensão de eletrônicos, autorizada por um juiz substituto do TRE-AP que depois foi declarado suspeito por ser sócio do advogado de Josiel. Alcolumbre se reelegeu com 48% dos votos, 22 mil a mais que Rayssa.

Em agosto de 2025, a ministra Estela Aranha (TSE) reabriu o inquérito contra o promotor. A procuradora regional eleitoral do Amapá, Sarah Teresa Cavalcanti de Britto, levou o caso ao CNMP, e João Furlan foi afastado em janeiro. Em 3 de março, o ministro Flávio Dino (STF) afastou Dr. Furlan e o vice-prefeito por suspeita de fraude em licitação de obras de um hospital. A PF não citara o vice, mas a PGR pediu a extensão da medida, acatada pelo Supremo. Com isso, Pedro DaLua — do União Brasil e apontado como braço direito de Alcolumbre — assumiu a prefeitura. Segundo a Piauí, o grupo “tomou a prefeitura como que de assalto”: servidores de Finanças, Saúde, Educação e Comunicação foram orientados a retirar pertences, entregar senhas e a lista de contratos; fechaduras foram trocadas.

Depois de temer um ano difícil, Alcolumbre saiu de 2022 fortalecido: renovou o mandato e apoiou Clécio Luís, eleito governador com 53,7% no primeiro turno (então no Solidariedade, hoje no União Brasil), que entregou cargos estratégicos ao senador, como a Secretaria de Justiça e Segurança Pública.

Pesquisas para 2026 indicam dificuldade para a reeleição de Clécio numa nova disputa com Dr. Furlan. No fim de 2025, Alcolumbre teria mandado recado ao deputado Vinicius Gurgel (PL-AP), ex-aliado que migrou para Furlan: segundo quatro fontes, o senador disse que, se Gurgel continuasse na oposição, atuaria para acelerar uma investigação por lavagem de dinheiro em licitações fraudulentas que corre no STF. Gurgel não recuou; o caso, parado por mais de um ano no gabinete de Alexandre de Moraes — “amigo muito próximo de Alcolumbre”, diz a revista —, voltou a andar e foi à PGR em janeiro.

Com influência no governo local, órgãos de controle, Justiça estadual, aliados em empresas públicas e “múltiplos tentáculos em Brasília”, Alcolumbre é tratado como governador de facto do Amapá, reavivando o “coronel” de Victor Nunes Leal. Em Brasília, apresenta-se como “o que há de novo na política”.

O senador também estendeu domínio à regularização fundiária. Em 2019, ao ocupar interinamente a Presidência por dois dias, assinou decreto sobre venda de imóveis da União no Amapá — processo que passa pela SPU, comandada por Leily Gonçalves de Andrade, cunhada de Alcolumbre. Empresários relatam “negociações no escuro dos bastidores” para adquirir terrenos. O senador nega envolvimento, mas a Piauí afirma que a SPU foi usada para travar pedidos da Prefeitura de Macapá quando comandada pelo rival.

Alcolumbre não deu entrevista, mas respondeu a 19 perguntas. Sobre o orçamento secreto — inclusive a reunião em que citou R$ 150 milhões “dele” — disse que a destinação de recursos “é prática lícita, transparente e constitucionalmente prevista” e segue “critérios institucionais”. Negou pressões sobre o Judiciário e chamou de “gravíssima” e sem “razoabilidade” a narrativa sobre os Furlan, afirmando que membros do MP não estão “sujeitos à influência ou controle de parlamentares”. Sobre Gurgel, classificou a acusação como “grave, ofensiva e não corresponde à realidade”.


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