Em meio a decisão do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), contra o promotor João Paulo de Oliveira Furlan um fato chama a atenção: O promotor apurava o esquema do "Corredor do Combustível" que teve a participação direta do governo do Amapá.
A investigação ocorreu durante a gestão do secretário Jesus de Nazaré Almeida Vidal, apontado como homem de confiança do governador Clecio Luis (União Brasil).
Segundo informações, João Furlan instaurou inquérito ano passado para verificar se o Estado do Amapá teria renunciado a impostos no esquema do "corredor".
O promotor também apurava empresas importadoras ligadas a Ricardo Magro, Beto Louco e Mohamad.
Como funcionava o esquema
O arranjo tributário criado no Amapá transformou o Estado em uma porta de entrada privilegiada para a importação de combustíveis no Brasil entre 2023 e 2024. O mecanismo, conhecido no setor como “corredor do Amapá”, permitia que empresas trouxessem diesel e gasolina do exterior com adiamento do pagamento de ICMS por até 60 dias. Na prática, a brecha abriu espaço para um esquema de sonegação que teria causado prejuízos bilionários a outros Estados.
De janeiro de 2023 a abril de 2024, o Amapá "importou" nada menos que 2 bilhões de litros de diesel, segundo o relatório. Foi só nesse período que a brecha foi fechada.
Além disso, o diferimento do ICMS ocorreu mesmo depois de decisão do STF proibindo tal medida e só parou quando o CONFAZ (Conselho Nacional Fazendário) ameaçou punir o Amapá. A mesma suspeita pode está ocorrendo com a Nafta Petroquímica, que ao invés da Nafta, trazem gasolina.
O caso ganhou contornos políticos após surgirem mensagens que indicariam conversas sobre valores e planilhas envolvendo o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, e empresários investigados por fraudes no setor de combustíveis.
O contexto político chamou atenção de investigadores porque o esquema operava em um Estado governado por Clécio Luis, aliado do senador Davi Alcolumbre. Ambos integram o União Brasil, presidido por Rueda.
Os diálogos foram apresentados por advogados de dois empresários do setor - Roberto Augusto Leme da Silva e Mohamad Hussein Ali Mourad -, que tentam negociar acordos de delação. Ambos estão foragidos e são investigados em operações que apuram fraude fiscal, adulteração de combustíveis e possível ligação com organizações criminosas.
Segundo relatos incluídos na proposta de colaboração, a dupla utilizou empresas sediadas no Amapá para importar grandes volumes de diesel, principalmente da Rússia, aproveitando benefícios fiscais concedidos pelo Estado. O combustível, porém, não passava fisicamente pelo território amapaense. Os navios realizavam o desembaraço em portos do Nordeste e seguiam diretamente para o Sudeste, onde a carga era distribuída.
Segundo o jornal Folha de São Paulo, a PGR recusou a proposta de delação de Beto Louco que atingia Alcolumbre. Em reportagem da Revista Piauí, diz que o show do Roberto Carlos no Amapá teria sido pago pelo empresário Beto Louco, a pedido de Davi. O parlamentar nega.
Em dezembro, o portal UOL revelou que a proposta de colaboração havia sido considerada frágil pelo procurador-geral Paulo Gonet, mas poderia ser retomada diante de "novos elementos". O mesmo Gonet conduziu a punição ao promotor do Amapá no CNMP.
Afastamento
O promotor João Furlan que também é presidente da Associação dos Promotores do Amapá, foi afastado por decisão do corregedor-geral do CNMP, Ângelo Fabiano Farias da Costa, com base em fatos de 2020 com processo em trânsito em julgado.
Agora, em agosto de 2026, o CNMP decidiu pela perda das funções do promotor. João Furlan anunciou que vai recorrer da decisão por se basear em processo já extinto. Além disso, a defesa afirma que só há demissão com processo trânsito em julgado. O senador Lucas Barreto (PSD), denunciou "perseguição política" contra o promotor.