A apropriação de terras na Amazônia amapaense e a devastação ambiental parecem ser apenas a ponta de um iceberg em uma complexa teia de investigações que agora atinge a alta cúpula da segurança pública do Estado. O avanço do Ministério Público Federal (MPF) sobre crimes ambientais em Calçoene revelou indícios de grilagem que, em um efeito dominó, conectam um membro do alto escalão do governo a figuras com um histórico criminal alarmante.
No centro do escândalo está Cézar Augusto Vieira, atual Secretário de Segurança Pública do Amapá e delegado da Polícia Civil. As suspeitas começaram a se avolumar no interior do estado, na "Fazenda Água Clara". O MPF investiga o desmatamento ilegal de 3,09 hectares de vegetação nativa na propriedade atribuída ao secretário. A procuradoria foi taxativa ao apontar indícios de grilagem de terras, questionando como um delegado de polícia tornou-se possuidor de uma área na Amazônia marcada por supressão vegetal sem licença.
A investigação federal também apura as relações financeiras e imobiliárias entre a área do secretário e o "Sítio Kulkamp", pertencente a Nelson Kulkamp — homem que já havia processado Cézar Augusto por uma dívida de mais de R$ 41 mil. Esta não é a primeira autuação do secretário; em um processo anterior na Justiça Estadual, ele pagou uma prestação pecuniária para extinguir a punibilidade pela destruição de 14,69 hectares de floresta primária na mesma região.
O que começou como uma apuração de crimes ambientais ganhou contornos de organização criminosa com a descoberta de uma caminhonete Chevrolet S10 apreendida pela Polícia Civil que circulava com placas clonadas. Ao volante estava Francisco Gomes Vilhena, que justificou o uso do veículo oficial afirmando prestar "apoio informal" ao secretário em investigações relacionadas ao roubo de gado. É exatamente neste ponto que a justificativa colide com os fatos e expõe uma contradição perturbadora: Francisco Gomes Vilhena já foi preso e condenado judicialmente exatamente pelo crime de furto de gado (abigeato).
A situação se agrava ao se analisar a árvore genealógica do "prestador de serviços". Francisco é pai de Francisco Jardel da Silva Vilhena, o "Jardelzinho", apontado pelas forças de inteligência como uma das maiores lideranças do Comando Vermelho (CV) no Amapá. O fato de um Secretário de Segurança ceder um veículo oficial, adulterado, para um homem condenado por furtar gado sob a pretexto de investigar esse mesmo crime é estarrecedor.
A Pior Gestão da História e a Intocabilidade Política
Além do denso escândalo criminal e ambiental, Cézar Augusto Vieira acumula o que os números já consagram como uma das piores gestões da história da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (SEJUSP). Sob sua tutela administrativa, o Amapá amargou o desastroso posto de estado mais violento da federação por dois anos consecutivos. Os dados dos Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) explodiram de forma catastrófica, com a taxa estadual ultrapassando a assustadora marca de 50 mortes para cada 100 mil habitantes, patamar que representa mais do que o dobro da média nacional. Enquanto as facções, como o próprio Comando Vermelho, avançam, a política de segurança do estado se mostra falida e inoperante.
Diante de um cenário tão caótico, perguntas ecoam nas ruas de Macapá e nos corredores do poder: afinal, como um homem com tamanha ficha criminal, possuindo condenações e sendo alvo do MPF por grilagem, pode ocupar a cadeira máxima da Segurança Pública do Estado?
Mais grave ainda é o silêncio institucional. Por que a Corregedoria da Polícia Civil, órgão que deveria zelar pela ética, legalidade e lisura, permanece inerte e não toma medidas severas contra os abusos do delegado?
A resposta para a manutenção desse poder cego e nocivo reside nos bastidores da política local. É de conhecimento público nos bastidores governamentais que Cézar Augusto Vieira goza de total blindagem por ser amigo pessoal e protegido político do senador Davi Alcolumbre. É o senador o verdadeiro responsável pela indicação inicial e pela força que garante a manutenção de Vieira no cargo, barrando exonerações e eventuais afastamentos.
Até quando o Amapá continuará sangrando sob os piores índices de violência do país e servindo de quintal para grilagem, apenas para blindar o apadrinhamento político que controla o Estado? Enquanto a Corregedoria fecha os olhos, a sociedade amapaense paga o preço com a própria vida.